Obed Rodrigues de Souza

"Creio para compreender, compreendo para crer melhor." Agostinho de Hipona

Textos

O Mercador de Veneza, de Shakespeare
‘ Pela graça sois salvos, mediante a fé; ‘ (Ef. 2:8 )

‘ ... judeus pedem sinais, os gregos buscam sabedoria; mas nós pregamos a Cristo crucificado, escândalo para os judeus, loucura para os gentios...’   ( I cor.1-22-23)

                                  O Mercador de Veneza , de Shakespeare

   A genialidade de Shakespeare está em fazer dos silêncios que emergem das falas subliminares de suas personagens o texto mais importante de suas peças.
   De todas as suas obras, esta é a que no final deixa a vitória com sabor de vergonha; deixa o leitor com a sensação de mal estar moral, de que algo ficou inacabado, de que haveria muito mais ainda a ser dito... acentuando  que o homem é um devedor. Há uma dívida pendente na alma humana, que por mais que o homem alcance e realize, será sempre evidente como sua falha trágica:  sua insuficiência e incapacidade em reger os negócios humanos de forma justa e perfeita.
   Assim é, segundo a minha leitura, o ‘Mercador de Veneza’, de Shakespeare: uma peça cheia de ambiguidades, para ressaltar, quão ambíguo e complexo é o ser humano e seu governo, sua justiça e seu amor. Afinal, de acordo com o conceito bíblico ‘todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus.' Rm. 4:18
     Uma crítica contundente às realizações humanas, tanto ocidentais quanto orientais.
   Foi escrita em 1598 e publicada no quarto de 1600. A história se passa em Veneza e na fictícia Belmont, Itália.
   Antônio é um mercador que não pode emprestar uma certa quantia  de dinheiro ao seu amigo Bassânio, porque está com toda a sua frota empenhada , em alto mar. Bassânio está ‘apaixonado’ por Pórcia, uma rica donzela que vive em Belmont, cujo pai deixou seu destino selado dentro de três baús. Ela só poderá casar com o pretendente que escolher o baú com sua foto dentro.  Bassânio deseja viajar em alto estilo até Belmont para impressionar Pórcia, com quem deseja casar-se.  Até o momento nenhum dos pretendentes conseguiu acertar o baú correto.
    Em Veneza, Antônio e Bassânio vão atrás de Shylock, um judeu que empresta dinheiro a juros; desprezado por muitos cristãos na cidade, por causa da sua usura. Antônio e os demais cristãos tinham o hábito de cuspir-lhe no rosto, como sinal de desprezo pela sua usura, tida pelos cristãos como uma prática pecaminosa.
   Embora Antônio se recuse a desculpar-se com shylock, vai atrás dele para pedir três mil ducados. Shylock concorda com o empréstimo e diz que não emprestará o dinheiro a juros, ao contrário, o não pagamento da dívida, implicaria em Antônio empenhar 453 gramas de sua própria carne, com o que Antônio concorda.
  Shylock tem uma filha, Jéssica, que foge de casa com o amigo de Bassânio, Graciano, levando além do dinheiro, o anel de casamento de Shylock. O casal vai para Belmont. Quando Shylock descobre tudo fica desconsolado, por causa do dinheiro roubado e pelo anel de casamento que ele guardava como relíquia,  o que aumenta seu desejo de vingança contra Antônio.
  Bassânio então, com o dinheiro emprestado por Shylock, parte para Belmonte com o amigo Graciano. Chegando lá, num golpe de aventura e sorte, acerta o baú verdadeiro e casa-se com Pórcia. Graciano também casa-se com Nerissa,  a amiga de Pórcia. As duas dão de presente aos maridos um anel em sinal de finalidade, fazendo-os jurar que não se separariam deles como prova de amor e fidelidade.
  Notícias chegam dando conta que os navios de Antônio perderam-se no mar. Shylock então, muito mais desejoso de vingança reclama o seu direito sobre o pedaço de carne de Antônio. Bassânio, deixa Belmont e parte para Veneza para tentar ajudar o amigo. Shylock irredutível, não abre mão do cumprimento da pena, ignorando todos os pedidos de misericórdia e perdão.  
  Pórcia então, disfarçada de homem da lei, juntamente com Nerissa, assume a defesa de Antônio no tribunal de Veneza. Por um raciocínio ela vence a causa, lembrando a Shylock que ele não mencionou o derramento de sangue, portanto, é impossível cumprir o trato, porque nenhuma carne pode ser retirada de ninguém sem que haja derramamento de sangue.  Shylock é acusado de ter conspirado contra um cidadão de Veneza, o que significa que ele terá que devolver  metade de suas propriedades ao estado e outra metade a Antônio. O Duque ao invés de sentenciar Shylock , prefere imputar-lhe uma multa. Antônio propõe então que não ficaria com metade do dinheiro, sob  duas condições : Shylock deveria se converter ao cristianismo e deixar todas as suas posses para Lorenzo e Jéssica que delas desfrutariam após sua morte. Shylock concorda .
   Bassânio muito agradecido, e eventualmente, pressionado pelo
‘homem da lei' acaba dando-lhe o anel de casamento como recompensa pela defesa no tribunal. Graciano também dá seu anel a Nerissa, disfarçada de oficial de justiça.
   Quando Nerissa e Pórcia chegam a Belmont,  no outro dia, encontram Lorenzo e Jéssica fazendo declarações de amor sob o luar. Ao chegarem a Belmont, ambas as esposas acusam Bassânio e Graciano de infidelidade por terem dado os anéis de casamento. Mas antes que a decepção vá mais longe, Pórcia confessa que ela era o advogado de defesa de Antônio, e ambas se reconciliam com seus maridos.  Lorenzo e Jéssica ficam felizes em saber que herdariam a fortuna de Shylock e  boas notícias chegam dando conta de que os navios de Antônio chegaram em segurança. O grupo celebra sua boa sorte.
          O primeiro aspecto a ser considerado é como todos os homens de uma forma ou outra estão conectados, a despeito das diferenças.  Estamos ligados uns aos outros, somos sócios num empreendimento inusitado que é viver. ‘ Assaz estranha é a natureza dessa vossa causa.’ ( IV. I ) diz  Pórcia.  Ao estabelecermos nossas relações, terminamos devedores uns aos outros; à medida que a teia da vida vai nos envolvendo e nossas contradições vão se estabelecendo.  A estranheza da nossa causa é a capacidade de amarmos e odiarmos ao mesmo tempo.  O coração judeu e o cristão são espelhos de uma mesma realidade: a imperfeição humana e sua dificuldade em ser misericordioso como Deus o é conosco.  
     Ao procurar Shylock, o judeu avarento  e ao aceitar o dinheiro
‘ sujo’ do judeu, o cristão Antônio fica no mesmo nível do seu opositor, ambas as mãos cristãs e judias manipulam e utilizam o comércio, para satisfazerem suas necessidades, como Shylock diz:
   ‘ poderei comprar e vender convosco, conversar convosco, passear convosco e assim por diante, mas não comerei convosco, nem beberei convosco, nem rezarei convosco.’ ( I.III.28-30).
    O ocidente cristão e civilizado representado pelo mercador veneziano comercializa com os pagãos, e se acha superior, resultado de sua auto justiça. Religiosidade disfarçada de preconceito que serviu para subjugar povos, edificar reinos e praticar a injustiça humana em nome da justiça de Deus.        
    ‘ O lucro é uma bênção, desde que não roubemos para consegui-lo’
      ( I.III.134)
     A mensagem central de amor, perdão e graça do cristianismo, se perde no abismo entre os atos do mercador cristão e sua pretensa auto justiça. Um a sociedade que se auto denomina cristã, que deveria gerar  corações bondosos, foi capaz de produzir um mundo dividido entre senhores e escravos, reis e súditos, exploradores e explorados, brancos e pretos, ricos e pobres, ocidente e oriente. O lucro do capitalismo cristão se deveu, no percurso de sua história à custa da morte da identidade cultural de outros povos e culturas. E da discrepância entre a doutrina de Cristo e as ações dos seus seguidores.  De acordo com Pórcia:
‘ Se fazer fosse tão fácil como saber o que se deve fazer bem, as capelas seriam igrejas e as choupanas dos pobres, palácios principescos. Bom predicador é o que segue suas próprias instruções. É-me mais fácil ensinar a vinte pessoas como devem se comportar-se do que ser uma das vinte, para seguir a minha própria doutrina. O cérebro pode inventar leis para o sangue mas os temperamentos ardentes saltam por cima do decreto frio.’ ( I.II.11-15)
     Julgados estão ambos os corações: judeu e o cristão, se ambos obedecessem a lei de cada uma de suas crenças seria um caminho para a libertação, mas os ‘ temperamentos ardentes’ não são subjugados pela lei. A lei é incapaz de tornar o homem bom, por isso somos salvos de nossa morte diária, quando conseguimos perdoar. Shylock e Antônio são o espelho da alma humana, as duas faces de uma mesma moeda. Shylock representa os judeus, detentores da lei, o povo escolhido por Deus, segundo crê alguns cristãos, para receber um messias transcultural, através do qual, qualquer pessoa, que n´Ele cresse seria feita filho de Deus.
    Sob lei romana, entretanto  os judeus crucificaram Jesus, por outro lado, em nome de Cristo, o ocidente cristão usou a cruz como símbolo de guerra santa contra os pagãos, e desse modo construíram impérios, edificaram palácios, derramaram sangue inocente, escravizaram os seus semelhantes,  deixando um rastro de intolerância pelos seguidores
d ´Aquele que foi o mais manso de todos os homens.
       Nas palavras de Pórcia ‘ para obter graça todos nós rezamos; e é essa mesma oração que nos ensina a usar também da graça.’ ( IV. I ) Assim se fez a história de muitas nações chamadas cristãs. Suas orações serviram apenas como ornamento , aparência da verdade, enganando o mundo, como cita Bassânio:
‘ ... que causa tão corrupta e estragada não fica apresentável por uma voz graciosa, que a aparência malévola disfarça? Que heresia poderá haver em religião , se alguma fronte austera a defende, e justifica com a citação de um texto sagrado... não há vício  por crasso, que não possa revelar aparência  de virtude. ‘  ( III... )
     Segundo Lourenço:
      ‘ ... como até os bobos sabem fazer trocadilhos! Sou de opinião que dentro de pouco tempo o espírito passará a provar a sua superioridade, tornando-se mudo e que a eloquência só será recomendada para os papagaios.’ ( III.  IV )
      A eloquência do ocidente civilizado, torna-se tagarelice de papagaios, quando confrontada com seus atos. O homem racional, através de seu sangue ardente de ódio e preconceito, é capaz de transformar em treva toda a sua luz.
      De que serve tanto aparato filosófico e eloquência se não consegue libertar a verdade, envolta em ornamentos de mentira? Seria o homem apenas alguns kilos de carne, não diferente dos outros animais?
           Tanto Shylock, o avarento , como o cristão comerciante, vivem sob o peso de suas culturas... não sabem perdoar. Incapazes são de reproduzirem um outro tipo de comportamento que não a vingança e o preconceito, ‘ ... se um judeu ofende a um cristão, qual é a humildade deste? Vingança. Se um cristão ofender um judeu. Qual deve ser a paciência deste, de acordo com o exemplo cristão? Ora, vingança.’ ( III.V)  Por isso a graça de Deus, torna todos os homens devedores.
           Uma libra de carne, carne – o que é comum a todos os homens, se parafrazearmos podemos dizer: todos os homens são nascidos ‘carne’, logo  feitos todos iguais.  Mas seria o homem apenas alguns quilos de carne?
           Quando Shylock pede que a dívida seja paga com uma libra da carne de Antônio, ele pensa que a lei poderia aproximá-lo do cristão. Acredito que Shylock estava sendo sincero quando diz, ‘ ... é meu desejo prestar-vos um obséquio, conquistar-vos a amizade, esquecer-me das injúrias, suprir vossa necessidade.’ ( I. III )
    Quando propôs uma libra de carne pelo pagamento da dívida, estava certo que Antônio poderia pagar a dívida no tempo certo; queria apenas que o cristão dividisse um pouco do seu ser com o dele – um judeu. Uma atitude emblemática, afinal , ‘ ... os judeus não têm olhos? Os judeus não têm mãos, órgãos, dimensões, sentimentos, inclinações, paixões? Não ingere os mesmos alimentos, não se ferem com as mesmas armas, não estão sujeitos às mesmas doenças?’  ( III.V)
         Ele queria que Antônio, o cristão fosse capaz de conviver com ele como a um igual... nascidos sob o signo da carne... feitos iguais pela mesma natureza corruptível e mortal, elemento que um dia vai apodrecer. Shylock não queria ser apenas o outro, ele queria fazer parte de uma sociedade que fez dele um marginal, uma sociedade que negociava com ele, mas o chamava de cachorro, uma sociedade altamente intelectual, mas que não se envergonhava de fazer de seus semelhantes escravos e vendê-los como uma mercadoria.
  ‘ ... Possuis muitos escravos, que como asnos, cães e mulos tratais... sob a escusa de haverdes comprado. Já vos disse que os pusésseis acaso em liberdade? Que com vossas herdeiras as casásseis? Em resposta diríeis: ‘ os escravos são nossos.’ De igual modo vos direi em resposta que essa libra de carne, que ora reclamo, foi comprada muito caro; pertence-me; hei de tê-la. ´ ( IV.I)
    Shylock não entendeu o espírito da lei, pensou que decretos frios poderiam dar-lhe o que queria. No seu desejo de vingança, por ter perdido tudo, inclusive a filha que fugira com um cristão, pensou que deteria a vida do cristão em suas mãos. Reproduziu o mesmo tipo de comportamento, não soube, ouvir a voz da graça, que segundo Pórcia, ‘ é tão alta... Gota a gota ela cai, tal como a chuva do céu. O poder temporal o cetro mostra, atributo de medo e majestade, do respeito e temor que os reis inspiram: mas a graça , muito alta, sempre paira das injunções do cetro, pois seu trono no próprio coração dos reis se firma; atributo de Deus; quase divino fica o poder terreno, nos instantes em que a justiça se associa à graça. Por tudo isso, judeu, conquanto estejas baseado no direito , considera que só pelos ditames da justiça nenhum de nós a salvação consegue.’( IV. I )
      Ao fim do julgamento, destituído de tudo, inclusive de sua identidade, Shylock, humilhado, aceita se ‘ converter ‘ ao cristianismo, para não perder tudo.  Deste modo, réu e acusadores se tornam iguais. A sequência dos eventos nos leva a perceber que viver, de algum modo, é um ato de morrer, de nos perder, não há espaço para a  inocência, vivemos a medida que perdemos as virtudes de filhos de Deus, e ficamos cada vez mais ‘ libras de carne’ apenas.  Diante dos conflitos existenciais, despimo-nos, muitas vezes da imagem e semelhança do nosso Deus, ficamos nus de nós mesmos, tal qual Adão e Eva, ao perceberem que tinham se distanciados do pai.
          O discurso maravilhoso de Pórcia e a sua eloquente perspicácia prova que ‘ pelos ditames da justiça nenhum de nós a salvação consegue.’ Shylock sai do tribunal humilhado, ele não imaginou que a lei seria contra ele mesmo.
     A lei que deveria conduzir o povo judeu ao céu, fê-los crucificar aquele que seria seu Messias.  O cristianismo secular, vendido à escravidão do poder, trocou a justiça do céus, pela justiça da terra.  Hipocrisia e intolerância dão a luz a filhos cegos e  órfãos da graça de Deus. ‘ Cuida que a luz em ti não se torne em trevas’, foi o que Jesus disse.
      Oriente e ocidente, brancos e negros, ricos e pobres somos devedores ao Deus de amor e graça, que nos julgou, nos achou em falta, mas mesmo assim nos amou. Almas que se escondem debaixo de meros quilos de carne... ‘  assaz estranha é a vossa causa’... o mistério do homem... trabalho de sísifo.
       Pórcia então, ao perceber quão frágil é a lealdade dos maridos, veste suas palavras com uma fina ironia, para disfarçar seu desapontamento para sobreviver ao ataque da fria realidade.  Assim é que o homem civilizado - carrega sua própria história, utilizando-se da linguagem, como uma arma para sobreviver aos ataques da dura realidade dos fatos. É quando, segundo Lourenço, ‘o espírito torna-se mudo’, e a eloquência torna-se apenas tagarelice de papagaios.
        A vida é envolta em uma ‘ assaz estranheza’, nossos espíritos muitas vezes escondem um mal-estar existencial  como Shylock, quando expressa, ‘não me sinto bem’, como Jéssica e Lourenço, sob o luar , trocando juras de amor, sabendo que não poderiam ser completamente felizes...  Como Pórcia, ao perceber a falibilidade das promessas dos maridos.
        O que fazermos com tantas contradições da existência humana senão amarmos uns aos outros ?
       Somente a  graça  encontrada no sangue do filho de Deus, derramado para todo aquele que crê,  presente imerecido do céus, pode fazer com que meros kilos de carne, sejam  transformados em espíritos vivificados , à imagem e semelhança do pai eterno.
          Só assim então, espíritos livres do peso da condenação da morte que pesa sobre a carne, poderemos, um dia,  estar diante do trono branco do pai, sem culpa, pois fomos por ele mesmo justificados em amor, por aquele que não teve medo de derramar seu sangue, para dar vida a pecadores como nós.
  
    Referências
www.sparknotes/themerchantofvenice
www.ebooksbrasil.org/adobeebook/mercador.pdf
Obed Rodrigues de Souza
Enviado por Obed Rodrigues de Souza em 15/02/2010
Alterado em 02/01/2020


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