Obed Rodrigues de Souza

"Creio para compreender, compreendo para crer melhor." Agostinho de Hipona

Textos


ERAM OS DEUSES JOGADORES DE FUTEBOL?

‘ Ouvi outrora um príncipe e muito grande comandante afirmar que um soldado não podia ser condenado à morte por covardia.
Na verdade é justo que se faça grande diferença entre os erros que vêm de nossa fraqueza e os vêm de nossa maldade. '
‘ ... quanto à covardia, é certo que o modo mais comum é castigá-la pela vergonha e ignomínia.” Michel de Montaigne.


Perdemos uma Copa, podemos ganhar um país...

Gosto dos finais felizes, quero ser da turma dos que acreditam, não quero estar no grupo dos que só criticam, mas apesar de tudo isso, gosto do gênero tragédia, porque acho que ela nos ensina mais que os romances de finais felizes.

Não devemos vestir a capa do triunfalismo barato do superman - Saber ganhar e perder, eis o jogo da vida. Amo meu país, amo nossa gente, temos qualidades maravilhosas que o mundo pós-moderno precisa, mas temos que encarar os fatos.
A Alemanha que derrotou o Brasil por 7x1 treina há oito anos. São técnicos e racionais, souberam ganhar. Têm sangue frio.
A vida exige técnica e exige percepção. Poucas coisas venceremos pelo talento e improviso. A maioria dos conflitos venceremos com garra e estratégia - fusão da emoção e da razão e numa outra categoria a fé. A razão iluminada pela ética cristã.

Nunca vi político brasileiro chorando de vergonha ou pedindo desculpas...
Achei digno David Luiz chorar e pedir desculpas, FOI HUMANO. MOSTROU QUEM ERA.
Achei digna a forma de Felipão esperar cada jogador e agradecê-los, tomar a responsabilidade para si, foi digno, foi honroso. SÓ FALTOU FUTEBOL, NÃO FALTARAM SINCERIDADE E HUMILDADE, naquele momento.
Se não souberam dominar o medo... ou o que quer que os fizeram perder tão feio é por serem apenas seres humanos, não deuses.
A vergonha a que vou me referir aqui, é um emblema para toda uma nação.
Às vezes é mais fácil vivermos a ilusão de sermos ‘ super-heróis’ sustentados por todo tipo de fuga, do que sermos apenas seres humanos imperfeitos. Não queremos ser derrotados, não queremos ser humanos, queremos ser deuses...
Percebemos que cada vez mais eventos esportivos tomam o lugar de
‘um culto', um deus, o depositário de todas as expectativas e frustrações humanas.

Creio que podemos usar essa decepção para podermos olhar para nós mesmos e como diz muitos ‘mostrar a nossa cara’. Isto é , fazermos uma autoavaliação, quem sou eu, quem somos nós? Quem é o Brasil?
Em outro artigo meu, citei King e Mandela como líderes que para mim são emblemas da liberdade e dignidade humanas. Eles deram ao povo não apenas a arma, mas a coragem, a postura certa para irem à batalha.
Mas como um faminto vai à guerra? Ele precisa se alimentar – dê-lhe então pão... Mas também dê-lhe um motivo, dê-lhe um nome . Dê-lhe subjetividade.  Dê-lhe uma identidade.

Por que eu escrevi os quatro parágrafos acima ?
Porque colocaram sobre as costas desses meros jogadores o papel de salvadores da pátria, portadores da alegria que nosso coração almeja.
Portadores da esperança que muitos líderes não conseguem oferecer.
Com a saída do Neymar, David Luiz ocupou o espaço vazio no coração do brasileiro... O espaço da estrela mais brilhante no olimpo do futebol.
David Luiz naquele momento era apenas David Luiz e o vazio do coração do brasileiro do tamanho de um gigante... Um gigante que no momento, o Brasil provou não estar pronto para vencer.

No Brasil, ao povo resta apenas o pão, afinal a ‘ bolsa’ , só os leva até ao supermecado... Até ao ‘ céu da bolsa ‘ , Ops... ao céu da boca.
É preciso comer, mas mais importante é preciso sonhar: projetar expectativas, admirar algo ou alguém antes de sermos nós mesmos.
Comer - todos os animais comem, mas ao homem foi dito: ‘ Nem só de pão viverás...”. ( Mt.4:4)
Na ausência de heróis cultuam-se celebridades, desportistas, seja lá o que for, criam-se religiões que satisfaçam somente aos desejos.
É preciso também projetar expectativas.
Projetar em quem? Não há modelos, Não há padrões, o que vale é a corrupção, o jeitinho, o improviso. Brasília definitivamente não se configura no imaginário nacional como nossa ‘ terra prometida’.
A política brasileira é feita atualmente em cima de uma tal governabilidade que podemos traduzir como: ‘ toma lá, dá cá ’. O povo assiste aos escândalos ao vivo e em cores, com todos os réus circulando livremente, porque a ‘ Justiça não pode ser vingança ’ .
É claro que não estou falando de todos os políticos, há os que não se corromperam, mas estão cada vez mais escassos.

Quem sabe, o pensamento de Montaigne não poderia aplicar-se a essa vergonha por que passamos agora ( posso estar descontextualizando o pensamento acima) mas ainda assim, Gostaria, por exemplo, de ver algum dia um político brasileiro chorando, pedindo desculpas por seus atos corruptos. Nossos jogadores choraram pela tensão, pelo nervosismo, pela decepção.
‘ ...Fazer antes subir sangue à face do acusado do que derramá-lo.' Parafrazeando e onde lê-se sangue, leia-se vergonha .
Quem sabe esse vexame global nos faça refletir sobre nós mesmos e ‘suba vergonha à face do acusado'. Não seria essa uma virtude básica a ser esculpida no rosto do Brasil que queremos ver crescer ou mesmo renascer...?

Cobre-lhes de vergonha o rosto até que busquem o teu nome, Senhor.
Salmos 83:16


Obed R. de Souza
11/07/2014

Ref. Bibligráficas
MONTAIGNE, Michel. Sobre a Punião da Covardia. www.pensamentosnomadas.files.wordpress.com/2014/03/Michel-Montaigne-os-ensaios-.pdf. Acessado em 08/07/14.


 
Obed Rodrigues de Souza
Enviado por Obed Rodrigues de Souza em 11/07/2014
Alterado em 22/12/2020


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